Desvendando a Relação entre Alzheimer e o Sono

A doença de Alzheimer costuma bagunçar a rotina diária das pessoas. Muitas vezes, os portadores têm dificuldades para dormir a noite toda, ficam inquietos na cama e acabam fazendo várias sonecas durante o dia. Esses comportamentos podem ser sinais iniciais da doença. Em estágios mais avançados, os pacientes costumam apresentar um fenômeno conhecido como “sundowning”, que se refere a uma confusão e agitação que aumentam no final do dia. Essas alterações revelam uma conexão importante entre o Alzheimer e o sistema circadiano, que é o relógio biológico do corpo, controlando sono, vigília e outros ciclos diários.

Recentemente, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Washington, em St. Louis, descobriu que a doença de Alzheimer atrapalha os ritmos circadianos em células cerebrais específicas. Isso influencia como e quando centenas de genes se ativam e desativam, afetando processos essenciais para o funcionamento do cérebro.

Os resultados desse estudo foram publicados em outubro e mostram que reestabelecer ou estabilizar esses ritmos internos pode trazer novas opções de tratamento para o Alzheimer. A pesquisa identificou 82 genes relacionados ao risco da doença, e os cientistas notaram que o ritmo circadiano controla a atividade de cerca de metade deles. Em camundongos com Alzheimer, esses genes perderam a programação usual que apresentavam dia após dia.

O especialista Erik S. Musiek, que conduziu a pesquisa, destacou que a descoberta de que muitos genes do Alzheimer são influenciados pelo ritmo circadiano abre caminhos para tratamentos que podem manipular esses genes, com o objetivo de retardar o avanço da doença.

Os Desafios das Interrupções do Sono

Musiek, que co-dirige um centro especializado em ritmos biológicos e sono, ressaltou que as interrupções do sono são um dos problemas mais comuns enfrentados por cuidadores de pacientes com Alzheimer. Estudos anteriores já indicavam que as alterações no sono podem começar anos antes da perda de memória se tornar evidente. Esses distúrbios não só provocam exaustão em pacientes e cuidadores, mas também criam estresse que pode agravar o quadro da doença.

Para quebrar esse ciclo, é fundamental entender quando ele se inicia. O sistema circadiano regula cerca de 20% de todos os genes do corpo humano, controlando processos essenciais, como digestão, resposta imunológica e ciclos de sono e vigília.

Em investigações anteriores, Musiek identificou uma proteína chamada YKL-40, que varia ao longo do dia e é responsável por manter níveis normais de amyloide no cérebro. O excesso de YKL-40, ligado ao risco de Alzheimer, pode levar ao acúmulo de amyloide, uma proteína pegajosa que forma placas, um dos principais sinais da doença.

O Impacto do Amyloide nos Mecanismos de Tempo do Cérebro

Dado que os sintomas do Alzheimer seguem um padrão diário repetitivo, a equipe buscou investigar mais proteínas e genes regulados pelo ritmo circadiano. No novo estudo, eles analisaram a atividade gênica em cérebros de camundongos que desenvolveram acúmulo de amyloide, além de camundongos saudáveis e outros mais velhos que não apresentavam placas. As amostras foram coletadas a cada duas horas ao longo de um período de 24 horas para entender como a expressão gênica mudava.

Os pesquisadores descobriram que os depósitos de amyloide afetavam o ritmo normal de centenas de genes em duas células cerebrais fundamentais: microglia e astrócitos. As microglia atuam como células de defesa do cérebro, eliminando resíduos e materiais prejudiciais, enquanto os astrócitos ajudam na comunicação entre neurônios e na manutenção de suas funções saudáveis. Muitos dos genes afetados são responsáveis pela capacidade das microglia de remover resíduos, incluindo o amyloide.

Embora esses genes não estivessem completamente desligados, sua ordem e temporização habituais se tornaram confusas, enfraquecendo o sistema do cérebro que deveria eliminar toxinas.

Ritmos Novos e Terapias em Potencial

O estudo também revelou que as placas de amyloide poderiam criar novos padrões rítmicos em genes que normalmente não seguem um ciclo diário. Muitas dessas alterações estão ligadas à inflamação ou à resposta do cérebro a estresse e desequilíbrios.

Conforme Musiek, essas descobertas indicam que terapias focadas em ajustar os ritmos circadianos nas microglia e astrócitos podem apoiar uma atividade cerebral mais saudável. A ideia é aprender a manipular o relógio biológico de forma que se fortaleça, se enfraqueça ou até mesmo se desligue em certos tipos de células. O objetivo final é otimizar o sistema circadiano para prevenir o acúmulo de amyloide e outras características do Alzheimer.

A pesquisa foi financiada por várias instituições nacionais de saúde e os autores ressaltam que os achados refletem seu trabalho, sem necessariamente representar a visão oficial dessas instituições.

Esses estudos são fundamentais para entender melhor como o sono e os ritmos circadianos estão ligados ao Alzheimer. Eles abrem portas para novas abordagens que podem melhorar a qualidade de vida dos pacientes e de quem cuida deles.

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Juliana Borges

Nutricionista em Goiânia e no online, ex-atleta de fisiculturismo e bicampeã brasileira Wellness (2018/2019). Colunista de saúde no PlanoMedicoSaude.