A dependência do álcool é um problema que atinge mais de 10% da população dos Estados Unidos e pode causar insônia severa e persistente. As dificuldades para adormecer e manter o sono podem persistir mesmo após meses sem beber, aumentando o risco de recaídas. Tratar essa insônia relacionada ao abstinência é complicado. Isso acontece porque o que se passa no cérebro durante essa condição ainda é bem misterioso.

Uma pesquisa recente com moscas da fruta ajudou a identificar certos sinais no cérebro e grupos de células que estão envolvidos na insônia causada pelo álcool. Esse trabalho pode abrir caminhos para tratamentos mais eficazes para a perda de sono relacionada ao álcool, ajudando na recuperação das pessoas com essa dependência.

Os pesquisadores perceberam que o impacto do álcool no sono das moscas da fruta é semelhante ao que ocorre nos humanos. Quando as moscas receberam uma dose alta de álcool, demoraram mais para adormecer e acordaram mais vezes durante a noite, mesmo dias depois de o álcool ter saído do corpo.

Importante ressaltar, os pesquisadores notaram que os efeitos do álcool no sono dependem da dose. Tanto nas moscas quanto nos humanos, uma pequena quantidade de álcool age como um estimulante. Isso aumenta a energia e a atividade, enquanto doses mais altas desaceleram o pensamento e os reflexos, podendo até causar perda de consciência. Porém, uma dose menor que deixou as moscas agitadas não impediu que elas dormissem normalmente. Por outro lado, uma dose maior de álcool bagunçou o sono por dias.

Isso indica que algo nas propriedades que diminuem a atividade cerebral do álcool está atrapalhando o sono. A pesquisadora Maggie Chvilicek acredita que isso pode ser fruto de um “efeito rebote”. Ou seja, ao diminuir a atividade cerebral com o álcool, os neurônios ficam hiperativos depois.

Um sinal cerebral chamado acetilcolina, que é importante para a memória e motivação, parece ser fundamental nos efeitos negativos do álcool sobre o sono, de acordo com a equipe de pesquisa. Quando eles reduzirem o sinal de acetilcolina, os efeitos do álcool no sono pioraram, fazendo com que até uma dose baixa de álcool causasse insônia duradoura.

A equipe utilizou ferramentas genéticas para alterar a atividade de células cerebrais específicas, focando em um grupo menor de neurônios que produzem acetilcolina e que parecem estar envolvidos na interrupção do sono causada pelo álcool.

Ao reduzir o sinal de acetilcolina nessa pequena quantidade de células cerebrais, as moscas se tornaram mais sensíveis a doses baixas de álcool, levando mais tempo para adormecer e acordando com mais frequência. Esses neurônios estão em uma região do cérebro das moscas que é parecida com a área do hipocampo humano, onde a sinalização de acetilcolina também tem um papel importante.

Um detalhe relevante é que desligar esse grupo de células não provoca problemas de sono por si só. As moscas precisam também ser expostas ao álcool para desenvolver sintomas de sono prejudicados. Isso mostra que algo mais complexo está acontecendo. Chvilicek ressalta que “não é apenas uma questão simples de as células estarem ligadas ou desligadas”. O álcool parece desempenhar um papel específico na atividade dessas células.

Os pesquisadores esperam que esse trabalho leve a tratamentos mais eficazes para pessoas em processo de abstinência. A maioria dos remédios para o sono atua em várias células do cérebro, o que aumenta o risco de vício e efeitos colaterais indesejados. “Identificando uma população muito menor e mais específica de células,” diz Chvilicek, “podemos teoricamente desenvolver intervenções mais direcionadas que realmente foquem no problema que estamos tentando resolver.”

Descobrir que moscas da fruta podem ser usadas para estudar a insônia causada pelo álcool também permite uma investigação mais profunda dessa condição. “Há muita informação mecanicista que podemos obter porque temos esse modelo,” afirma Chvilicek.

Como próximo passo, Adrian Rothenfluh, professor associado de psiquiatria na instituição, afirma que o laboratório planeja explorar quais genes estão envolvidos na insônia causada pelo álcool. “Já mostramos várias vezes que os mesmos genes conservados regulam comportamentos induzidos pelo álcool em moscas e humanos,” explica. “Estamos agora em uma posição privilegiada para identificar os mecanismos genéticos que afetam a insônia relacionada ao álcool.”

A pesquisa teve o apoio de instituições de saúde mental e de programas de medicina molecular.

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Juliana Borges

Nutricionista em Goiânia e no online, ex-atleta de fisiculturismo e bicampeã brasileira Wellness (2018/2019). Colunista de saúde no PlanoMedicoSaude.