As freiras católicas geralmente não participam de estudos longos sobre envelhecimento e demência, mas uma exceção importante trouxe informações valiosas sobre o que ajuda na resistência cognitiva e as doenças relacionadas ao envelhecimento.
Pesquisadores da Universidade do Texas, em San Antonio, analisaram mais de 30 anos de dados sobre envelhecimento e demência de 678 freiras da Escola de Irmãs de Notre Dame. Esse trabalho é conhecido como “Nun Study” e foi idealizado pelo epidemiologista David A. Snowdon, em 1986.
O estudo agora faz parte do Glenn Biggs Institute for Alzheimer’s and Neurodegenerative Diseases, supervisonado pela doutora Margaret Flanagan, professora associada de patologia e medicina de laboratório.
Os novos dados mostram que algumas pessoas conseguiram manter a mente saudável mesmo tendo um diagnóstico de Alzheimer. Isso sugere que existem mecanismos de proteção que ainda não conhecemos. Além disso, surpresas sobre habilidades linguísticas na juventude e complexidade gramatical estão ligadas a menos riscos de problemas de memória mais tarde.
Avanços em técnicas digitais e inteligência artificial estão mudando como pesquisamos o Alzheimer e demências. Esses novos métodos ajudam no desenvolvimento de intervenções para combater a perda cognitiva.
Flanagan destaca que o estudo tem sido crucial para entender os riscos e as proteções contra a demência, dada a homogeneidade das vidas das participantes. “Precisamos de abordagens completas e que considerem as várias patologias nas pesquisas sobre demência”, disse Flanagan.
Flanagan é coautora de um artigo que aborda os resultados do Nun Study. Esse artigo, chamado “The Nun Study: Insights from 30 years of aging and dementia research”, foi publicado recentemente. O primeiro autor do estudo é Kyra Clarke, estudante de MD/PhD, e vários outros autores também contribuem.
A nova análise do Nun Study é reconhecida como uma das mais importantes sobre envelhecimento e demência. Snowdon começou essa pesquisa enquanto estava na Universidade de Minnesota e depois movida para a Universidade de Kentucky, retornando à Minnesota em 2008 com a aposentadoria de Snowdon. Em 2021, foi brevemente para a Northwestern University e, finalmente, chegou à Universidade do Texas.
A coorte de freiras americanas com 75 anos ou mais, da Escola de Irmãs de Notre Dame, foi ideal para o estudo. Isso porque suas vidas eram bem semelhantes, limitando conflitos como tabagismo ou acesso desigual aos cuidados de saúde.
Embora todas as 678 participantes já tenham falecido, a pesquisa continua ativa no Biggs Institute. Os cientistas estudam materiais do cérebro que foram doados e milhares de dados coletados durante a vida das freiras. Elas concordaram em passar por avaliações neuropsicológicas anuais, o que ajudou a acessar arquivos e registros médicos dos conventos.
Os pesquisadores examinaram as relações entre fatores epidemiológicos, função cognitiva e patologias cerebrais. Entre os achados, podemos destacar:
Resiliência cognitiva e neuropatologia: O estudo encontrou fatores que ajudam a manter a saúde mental, mesmo com a presença de patologia do Alzheimer. Algumas pessoas mostraram carga neuropatológica alta, mas continuaram cognitivamente intactas. Isso indica mecanismos protetores que ainda não entendemos bem.
Genótipos APOE e risco de demência: Os pesquisadores analisaram como as variantes do gene APOE e4 e e2 se relacionam com o risco de Alzheimer e a preservação cognitiva. O gene Apolipoprotein E (APOE) ajuda no metabolismo de gorduras no cérebro. O APOE e4 aumenta o risco de Alzheimer, enquanto o e2 pode proteger contra a doença.
Previsores de saúde cognitiva na juventude: A pesquisa destacou que habilidades linguísticas na juventude estão ligadas à função cognitiva na velhice. Uma boa capacidade de expressar ideias e usar gramática complexa na juventude está relacionada a um menor risco de problemas de memória mais tarde.
Neuropatologias comórbidas e risco de demência: O estudo enfatiza que muitos casos de demência envolvem múltiplas patologias, não apenas Alzheimer puro. Entre essas, estão LATE, HS-A e patologia vascular. LATE refere-se à encefalopatia relacionada à idade e TDP-43, que afeta pessoas idosas. Já HS-A é a esclerose do hipocampo, que compromete a memória com o tempo.
Avanços em patologia digital: O estudo mostra como a análise digital e o aprendizado de máquina estão mudando as avaliações neuropatológicas. A patologia digital, com técnicas como imagens de lâmina inteira e transcriptômica espacial, estão ajudando a entender melhor as patologias cerebrais e abrindo caminho para diagnósticos mais precisos.
“As descobertas do Nun Study avançaram bastante nossa compreensão sobre a doença de Alzheimer e as patologias associadas”, destacou Flanagan. “Temos que continuar investigando a natureza multifatorial da perda cognitiva, especialmente na população idosa.”
Ela também ressaltou que há oportunidades promissoras para o desenvolvimento de biomarcadores, ajudando a identificar potenciais alvos para intervenções preventivas contra a perda cognitiva.
Assim, a pesquisa continua a descobrir novos caminhos, e a força da experiência das freiras é fundamental para entender como podemos evoluir no tratamento e prevenção dessas condições. O estudo promete contribuir significativamente para o futuro da saúde cognitiva e para a qualidade de vida das pessoas à medida que envelhecemos.

