O número de pessoas que praticam corrida de rua no país tem crescido consideravelmente, mas isso vem gerando preocupações, especialmente com a ocorrência de mal súbito durante as competições. Recentemente, dois incidentes se destacaram. Em uma corrida de 21 km em João Pessoa, um empresário morreu, e um estudante de 20 anos não sobreviveu após uma maratona em Porto Alegre. Esses episódios levantam um alerta sobre os riscos da atividade, embora haja um consenso entre médicos, atletas e organizadores de que esses riscos podem ser reduzidos com exames adequados e atenção às reações do corpo.

O cardiologista Itamar Ribeiro afirma que o problema não está na corrida em si, mas na forma como muitos iniciantes se lançam na prática sem a devida preparação. Ele ressalta que os benefícios da corrida são significativos, mas requerem alguns cuidados que muitas vezes são ignorados. É fundamental, segundo ele, que as pessoas façam um check-up cardiológico para verificar condições como pressão arterial, entre outros problemas que podem não ser visíveis imediatamente.

Outro ponto destacado por Ribeiro é a pressão por resultados rápidos. Muitas pessoas começam a correr e já aspiram completar distâncias maiores em pouco tempo, o que pode ser perigoso, principalmente para aqueles com mais idade. Ele enfatiza que antes de iniciar ou intensificar os treinamentos, a realização de exames cardiológicos é crucial e que sintomas como cansaço excessivo ao se exercitar não devem ser ignorados. Sinais como dor no peito, falta de ar e fadiga intensa devem ser levados a sério, já que a atividade física deve trazer benefícios e não riscos.

O uso indiscriminado de suplementos e estimulantes, que aumentam a frequência cardíaca, também pode ser prejudicial, especialmente quando combinados com esforço físico intenso e desidratação, podendo resultar em desmaios ou mal-estar.

A falta de sintomas não garante a ausência de riscos, portanto, a realização de check-ups é recomendada mesmo para aqueles que se sentem saudáveis. O cardiologista sublinha que existem métodos eficazes para detectar problemas cardíacos, mesmo em pessoas que não apresentam queixas.

Isadora Santana, de 26 anos, começou a participar de competições há pouco tempo e, embora nunca tenha presenciado um episódio de mal súbito, ouviu relatos de outros corredores. Para ela, os incidentes mais recentes aumentaram a sensação de vulnerabilidade entre os praticantes. Ela ressalta a importância de fazer um check-up anual e considera as consultas ao cardiologista essenciais. No seu dia a dia, Isadora se preocupa em respeitar seus limites: “Se não me sinto bem, eu paro e respiro. Se eu puder continuar, ótimo; se não, melhor descansar.”

Enoque Freitas, também de 26 anos, se afastou das maratonas para focar nos estudos, mas ainda corre ocasionalmente. Ele observou que muitos iniciantes não se preparam adequadamente, o que pode resultar em problemas de saúde. Ele já participou de provas de 21 km, mas se submeteu a exames como eletrocardiograma e teste de esteira para se certificar de que estava apto a treinar. Enoque acredita que é crucial que as pessoas se conheçam melhor e iniciem a prática de forma gradual, aumentando a intensidade aos poucos.

A segurança nos eventos de corrida é outra questão importante. Gabriel Negreiros, diretor da HC Sports, que organiza competições esportivas, destaca que a saúde do atleta deve ser uma prioridade. Segundo ele, nos eventos que promove, são adotadas medidas rigorosas de segurança, incluindo ambulâncias e equipes de atendimento médico. No entanto, ele ressalta que não se pode culpar a modalidade pelo aumento das fatalidades, pois os casos mais recentes envolvem pessoas que já apresentavam problemas de saúde não diagnosticados.

Gabriel observa que o aumento no número de corredores pode estar relacionado à frequência de incidentes, geralmente associados a falta de preparo e exames médicos adequados. Ele recomenda que os corredores escolham eventos organizados por empresas que sigam as normas de segurança e que respeitem seus próprios limites. “Superar desafios é importante, mas é preciso estar preparado para isso”, conclui.

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Juliana Borges

Nutricionista em Goiânia e no online, ex-atleta de fisiculturismo e bicampeã brasileira Wellness (2018/2019). Colunista de saúde no PlanoMedicoSaude.